Grandes em vários sentidos: AKG K701/ K702

Seguindo com as nossas publicações da trindade clássica de fones de ouvido neutros, chegaremos ao que me parece o mais agradável dos três: O AKG K701 ou o K702. A diferença entre esses dois modelos é simples: o 702 tem cabo removível e o 701 não tem. Há algumas outras diferenças, especialmente em versões mais recentes: As versões mais recentes do K702 não possuem as “lombadas” na tira que fica sobre a cabeça e possuem novas almofadas que alteram ligeiramente o som e são mais duráveis e confortáveis. Mais recentemente, a AKG lançou a versão “Quincy Jones” dessa linhagem, o Q701, que possui uma modificação na parte de trás dos falantes e tem um pouco mais de graves que o K701 ou o K702. Mas atualmente a AKG seguiu em frente e há uma evolução desses dois modelos no AKG K712, que possui um palco sonoro similar, mas que possui muito mais detalhamento que os modelos mais antigos. Entretanto, o K702 segue sendo um fone de ouvido extremamente recomendável.

Há uma longa discussão em fóruns da internet para se saber se há diferença sônica entre o AKG K701 e o K702. Em medições feitas por sites como o InnerFidelity, dá pra perceber algumas mudanças, mas são muito sutis e podem se dar por conta do ano de lançamento ou do tempo de uso, algo que muda a assinatura sonora mesmo ao compararmos dois fones de um mesmo modelo. Com isso, para efeitos desse post, analisarei apenas o K702 lançado no final da década passada, por ele ter uma semelhança muito grande com o K701 e ter semelhanças com as versões atuais do K702. Creio que tudo que falarei nesse post se aplicará à qualquer versão do K701 e do K702, com exceção da questão do cabo ser removível apenas do K702.

Há também outra questão que gera muita discórdia: há alguns anos a AKG deixou de produzir alguns de seus fones na Áustria, seu país-sede, e passou a produzir de forma terceirizada na China. O K702 analisado aqui foi feito na Áustria, mas não acredito que há uma diferença sonora abismal entre esse e o produzido na China – se é que há alguma diferença. O AKG K701 foi lançado em 2005 e o K702 no final de 2008 (apesar de só passar a circular no começo de 2009). Não vou mergulhar aqui muito na história dos fones da AKG (que é uma empresa que lança fones um tanto esquisitos e extremamente diferentes entre si). Deixarei para analisarmos a história dos fones dessa empresa austríaca em uma análise futura do AKG K240, um outro fone que persiste em produção há quase meio século. Sigamos então, para a análise do K702.

Versões

A Família K701 tem pelo menos 7 integrantes que foram lançados com o passar dos anos. Abaixo, elenco as diferenças básicas entre eles, mas boa parte das informações desse post se aplicam a todos.

  1. K701 original: lombadas na tira sobre a cabeça e o cabo fixo.
  2. K702 original: lombadas sobre a tira na cabeça e cabo removível.
  3. K701 versão mais recente feita na China: cabo fixo e tira sobre a cabeça sem as lombadas.
  4. K702 versão de aniversário de 65 anos dos fones AKG: cor distinta, maiores almofadas, espuma viscoelástica. Cabo removível e sem lombadas.
  5. K702 versão mais recente feita na China: sem lombadas. Algumas versões saem com as mesmas almofadas da versão de aniversário. Cabo removível.
  6. Q701 Quincy Jones: Versão mais popular, com mais graves e menos agudos, com cores distintas, mas com a presença das lombadas na tira sobre a cabeça. Cabo removível.
  7. K7XX: Versão mais barata lançada em parceria com a Massdrop. Alguns usuários relataram queda na qualidade de construção. Possui cores diferenciadas e sem lombadas sobre a cabeça. Cabo removível.

Preço

O K702 é um fone um tanto mais caro que a maioria dos fones disponíveis no mercado. Como citei na análise do Beyerdynamic DT880, considero esse um fone caro, visto que custa mais que um salário mínimo, mesmo quando comprado usado. Caro ou barato depende muito de quem está comprando e qual a situação (ou seja, se o fone vai ser exposto à algum perigo ou se ele tende a durar um bom número de anos). Nesse último ponto, o K702 é bacana, porque ele tende a durar um bom número de anos se você usá-lo corretamente.

Tendo a achar muito complicado usar o termo Mid-Fi para esse tipo de fone. Esse termo é utilizado para classificar fones que nem estão em uma categoria mais barata (Low-fi – atualmente, abaixo dos 200 dólares) e nem em uma categoria mais cara (Hi-Fi – atualmente, acima dos mil dólares). Para a realidade brasileira atual, eu creio que o K702 é um fone de alta-fidelidade sim, porque é um número extremamente baixo de pessoas que podem pagar por um fone acima de 4000 mil reais (preço mínimo atual para fones Hi-Fi usados aqui no Brasil). Portanto, creio que o K702, assim como os outros dois fones da trindade clássica da neutralidade, são investimentos muito sérios.

Conforto

O conforto do K702 é um item extremamente debatível, dependendo muito da situação. As pequenas lombadas que estão na tira de couro superior do fone são extremamente desconfortáveis depois de algum tempo de uso, fazendo com que muita gente modifique o fone colocando uma pequena almofada entre essa tira e a cabeça. As versões mais recentes do K702 não possuem essas lombadas, o que as tornam extremamente mais confortáveis.

(Lombadas presentes em alguns dos fones da família K701)

As almofadas auriculares também são um item que divide muita gente: O veludo que cobre a almofada pode ser muito quente em diversas situações e absolutamente não indico o uso em locais onde o usuário já esteja com calor. Além disso, há a reclamação de que as almofadas são bastante firmes, podendo inclusive serem consideradas duras. Eu acredito que elas são adequadas, uma vez que a concha que envolve o ouvido é bastante rasa e uma almofada menos rígida poderia facilmente ceder, fazendo com que a orelha encoste no fundo do fone de ouvido, gerando uma situação um tanto desconfortável.

Entretanto, as desvantagens cessam por aí. Se colocarmos o fone no ângulo correto, um pouco mais pra frente da cabeça (sobre a “crista” que temos na cabeça) o incômodo das lombadas cai bastante. Vale lembrar aqui que não é necessário aumentar ou diminuir o fone de ouvido para se adequar ao tamanho da sua cabeça, estando a tiara ligada a alguns elásticos que adequam o fone ao tamanho da sua cabeça automaticamente. Como as almofadas são bastante largas, elas tocam mais pontos da nossa cabeça, distribuindo melhor o peso. Além disso, as almofadas possuem uma angulação, se adequando melhor ao formato da cabeça. Caso o usuário consiga novas almofadas atuais do K702, creio que o resultado será ainda melhor, uma vez que elas são menos rígidas mas mais espessas e com espuma viscoelástica, o que aumenta consideravelmente o conforto.

Concluindo, acho esse um fone bastante confortável, mas preferia ter a versão sem as lombadas na tira que fica sobre a cabeça. O conforto vai do formato da cabeça de cada um, mas creio que pessoas com a cabeça um pouco maior irão achar esse fone mais confortável.

Estilo

Como vários dos fones da AKG, o K702 tem um formato um tanto estranho. Assim como o DT880, aqui cabe a crítica de que esse fone (que é extra-auricular/circunaural) possui um formato redondo, bastante diferente do formato da orelha. Entretanto, por ser consideravelmente maior e mais fino que o DT880, o K702 acaba se adequando mais ao formato do rosto. O que realmente chama a atenção no seu design são duas coisas: Os tubinhos de metal que criam o suporte principal desse fone; e o formato externo da concha, que possui uma protuberância no centro. Não acho que é um fone feio, mas claramente é mais esquisito que o DT880 e o HD600.

Isolamento

O K702 é um fone aberto, então basicamente ele não isola nada. A estrutura ao redor do falante é bem grande, mas não cria nenhum isolamento real. É um fone que vaza bastante som e deixa bastante som entrar, não sendo indicado para ambientes barulhentos ou ambientes que seja necessário fazer silêncio (como hospitais e bibliotecas). As almofadas do fone também possuem várias partes que não entram em contato com a cabeça (dependendo da posição do fone) então esse é mais um ponto que mostra que esse fone tem pouquíssimo isolamento.

Qualidade de construção

A qualidade de construção desse fone, como quase todas as características dele é… Esquisita. O K702 é um fone que me parece mal construído. Se você o segurar pelas conchas e chacoalhar, verá que ele parece ter uma estrutura que vai se desmontar eventualmente. Mas, na verdade, não vai. São poucos os relatos de K702 quebrando depois de alguns anos. O que realmente quebra nele são duas partes interligadas: o pedaço de plástico que liga a tira de couro superior aos pedaços de elástico e os elásticos em si.

É comum encontrar fones onde esses pedaços de plástico partiram, mas tenho pra mim que isso ocorre quando algum usuário tenta desencaixar pedaço dos tubinhos que dão o suporte ao fone. Seja como for, é um local para se ter um cuidado maior. Os elásticos… São elásticos. Eles vão ressecar e expandir com o tempo, tornando-se menos firmes. Para quem tem uma cabeça maior, isso vai fazer pouca diferença. Mas para quem tem uma cabeça menor, o fone pode parecer folgado depois de alguns anos de uso. Entretanto, creio que isso demora pelo menos 3 anos para acontecer, o que é um tempo razoável para se trocar de fone, não importa o quão bom seja.

Cabo

O cabo do K702 (ou mesmo o do K701) é muito bom. Desde o seu lançamento foi anunciado que ele viria com um cabo 99,99% livre de oxigênio, o que aumenta a durabilidade e ajuda a evitar interferências no sinal. É um cabo que consegue ficar em um bom meio termo em dois aspectos importantes: o peso e o tamanho do cabo. O cabo tem um tamanho de 3 metros, algo que julgo adequado para o seu uso caseiro ou em estúdios. O cabo também não é muito fino, o que prejudicaria a sua durabilidade e blindagem, e também não é muito grosso, o que o tornaria mais pesado e, portanto, desconfortável.

Há uma questão levantada em alguns fóruns sobre a preferência pelo K701 por ele ter uma melhor separação de canais por conta do conector utilizado no K702. Honestamente, os gráficos de medição não confirmam esse hipótese. Com isso, não consigo indicar o K701 justamente pelo motivo de o cabo do K702 ser removível. Há algum tempo eu fiz um cabo de 1,2m para usar esse fone em locais mais portáteis, como em um laptop. Assim, posso trocar o cabo a qualquer momento. Além disso, caso o cabo original venha a quebrar, a troca é mais fácil. O conector mini-xlr que conecta o cabo ao fone é robusto e aguenta mais porrada que o do HD600, por exemplo, e também é mais fácil de se encontrar para se fazer um cabo customizado. Na outra ponta, o cabo possui uma entrada P2 comum com uma rosca para se colocar um adaptador P10 (incluso com o fone).

Portabilidade

Em termos de portabilidade física, o K702 não é um fone portátil. Não há qualquer forma de dobrá-lo para um tamanho menor e ele não é um fone feito para aguentar algum impacto, então a única forma segura de transportá-lo é dentro de uma case. Além disso, sendo ele um fone aberto, ele não é indicado para uso portátil por vazar som e não isolar.

Em termos de portabilidade energética (se ele precisa ou não de amplificador) o K702 é um fone um pouco fora da curva. A sensibilidade dele é baixa e, mesmo tendo uma baixa impedância, ele precisa de um amplificador para ser bem puxado. Na verdade, mesmo ele tendo apenas 62 ohms de impedância, ele é mais difícil de puxar que o DT880 de 250 ohms. Isso corrobora ainda mais para a ideia de que esse fone deve ser usado de forma estacionária, em casa, e conectado a um bom amplificador.

Som

O K702 possui o som menos “fone de ouvido” dos três fones da trindade da neutralidade. O principal ponto do som desse fone é o seu palco sonoro: é bastante largo para um fone de ouvido com um bom nível de detalhamento. Se você não entende muito bem o que é palco sonoro, aí vai um a definição: Palco Sonoro é a sensação de os elementos sonoros que você escuta estarem mais separados ou mais juntos. Em um bom palco sonoro, você pode fazer um mapa de quais instrumentos em uma música estão mais afastados ou mais próximos de você.

Obviamente, essa é uma característica que você tende a diminuir um pouco caso você já escute música ou filmes em ótimas caixas de som, porque o palco sonoro normalmente é muito maior em caixas de som, uma vez que elas estão fisicamente afastadas do seu ouvido e interagem com o espaço ao seu redor, te dando uma sensação ainda maior de posicionamento sonoro. Um efeito engraçado que acontece com pessoas que escutam o K702 em uma sala com caixas de som é de achar que o som também está saindo das caixas. Não é incomum eu dar o K702 para alguém escutar e essa pessoa ficar tirando o fone para confirmar que as caixas estão desligadas. Essa é uma característica que auxilia bastante quem usa fones para masterizar áudio. Masterizar em fones quase nunca é ideal, mas escutar uma masterização feita com o K701 ou com o K702 em caixas de som deve causar menos estranhamento do que escutar uma masterização feita com o HD600 ou o DT880 nas mesmas caixas. Isso acontece porque a espacialização do K702 soa mais natural do que a dos outros dois.

O palco sonoro é particularmente essencial para quem gosta de assistir filmes ou jogar no computador, uma vez que essas pessoas se beneficiam muito de uma naturalidade espacial nos sons de ambiência, tornando tudo mais imersivo. No caso de jogos, muitas vezes se quer saber exatamente o ângulo que algum som está vindo, então um maior e melhor palco sonoro ajuda a entender melhor essa direcionalidade.

Uma característica básica do bom palco sonoro do K702 é a sua diferenciação estereofônica com uma boa imagem central. Muitos fones possuem uma boa separação estereofônica (ou seja, é possível diferenciar bem sons que vem do lado esquerdo e do lado direto) mas a imagem central fica prejudicada, deixando vozes mais afastadas, por exemplo. Apesar de o K702 não ser um fone com uma imagem central tão clara assim, é evidente que o seu palco sonoro não tem uma quebra na área central, ou seja, dos sons que estão logo em frente ao seu nariz ou sobre a sua cabeça.

Em termos de detalhamento, esse fone me parece possuir outra característica estranha: os graves e médios estão presentes, mas relativamente afastados (devido ao tamanho do palco sonoro) mas os agudos estão presentes demais. Não diria que é um fone com muita distorção nos agudos, mas definitivamente é um tanto simbilante, me parecendo o mais “brilhoso” da trindade da neutralidade. Com isso, acredito que não seja um fone muito adequado para uma escuta clínica de equalização ou de mixagem, tanto pela presença contínua de agudos por muitas horas poder ser nociva à audição quanto pelo fato de muitas vezes alguns detalhes passarem sem serem notados por conta dessa sensação de afastamento.

Em termos de resposta em frequências, esse fone também me aparenta ser o menos neutro se comparado ao DT880 ou ao HD600. Ele me parece (um pouco) carente de médios e a clareza vocal não é o tanto que eu gostaria de ouvir. Mesmo assim, estamos falando de um fone muito próximo da neutralidade. Com isso, acredito que ele atinge um bom meio termo entre ser neutro e ser divertido, algo que pode ser muito bom para quem está começando no mundo dos fones, porque daí compra só um para trabalhar e escutar algo com intuito de entretenimento.

A precisão e a rapidez desse fone são muito boas, talvez uma das melhores que já ouvi em um fone com menos de 100ohms de impedância. Entretanto, também me parece um ponto que não é tão clínico quanto os outros dois. Posso estar errado nisso, inclusive, porque o palco sonoro engana um pouco a percepção da rapidez. De qualquer forma, não consigo classificar isso como um ponto negativo. O K702 não é um fone “solto”, mas um fone preciso. Só não é tão absurdamente rápido quanto o DT880 de 600ohm, por exemplo. Como falei no último parágrafo, isso na verdade pode ser uma vantagem visto que uma rapidez muito alta pode na verdade tirar um pouco da diversão desse fone. Daí, a maciez desse fone acaba sendo maior e o som se torna mais agradável.

Conclusão

O K702 e seu irmão mais velho K701 são excelentes fones de ouvido que recomendo para qualquer pessoa que queira entrar num mundo mais sério da audiofilia. São fones confortáveis, leves, duráveis e com um som agradável. É particularmente mais agradável para pessoas mais velhas que já perderam parte da audição dos agudos. Nesse caso, o perfil simbilante que notei no K702 se torna uma vantagem, porque “repõe” uma presença de agudos que a pessoa não escuta mais. Caso a pessoa seja mais jovem e queira uma opção com menos agudos, vale a pena testar o Q701, que se livra de parte dos agudos e mantém as outras vantagens desse fone.

Pra quem é esse equipamento?

Pra qualquer pessoa! Mas realmente indico mais para quem tem uma cabeça maior, que não se importe com a presença extra dos agudos (ou que equalize o fone ao conectá-lo ao computador) e que queira um fone que seja excelente para jogos e filmes mas que ainda seja bom para escutar música e trabalhar com áudio.

 

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